Minha atenção está voltada para meu filho. Quanto mais
velho fica, mais aprendo com ele. Aos seis anos, já mostra uma incrível
capacidade com caneta e papel que me confunde a mente. Ele não é um artista de
retratos clássicos ou um talentoso desenhista da vida selvagem, mas consegue
capturar expressões emocionais em simples desenhos de animais, como eu sequer
tentaria fazer. Ele ainda troca letras quando imprime e ainda soletra as
palavras, mas quando se trata de desenhar amigos animais imaginários, é um
gênio gráfico. Assim, não fico surpresa que veja coisas através de lentes
diferentes das que normalmente uso.
Na semana passada, estávamos em um restaurante. Pedi
linguine com frutos do mar, que veio com mariscos e mexilhões. Ele, como
sempre, pediu massa simples com manteiga, e declarou-se satisfeito depois de
cerca de cinco garfadas. Ele já havia desfrutado tudo que o espaço permitiria e
estava ficando impaciente, enquanto o resto de nós comíamos. Limpei uma das
conchas com um guardanapo e dei a ele para brincar. Eu imaginei que ele iria
fazê-la falar, como a uma marionete, o que ele fez ... até que todo o seu rosto
se iluminou e ele disse baixinho:
- "Eu vou fazer um PERU!"
Não prestei muita atenção ao comentário mas, depois
disso, passou a segurar a concha com muito cuidado, para não quebrá-la, e me
disse, no momento em que fizemos contato ocular, que precisava fazer uma tarefa
assim que chegássemos em casa.
- "Não posso esperar para fazer o meu peru! "
Na minha cabeça, imaginei-o colando olhos arregalados no lugar de costume, em
seguida, fazer a boca abrir e fechar como se dissesse glu-glu-glu. Talvez mesmo
colasse na cor amarela ou laranja, como um bico.
A emoção da antecipação o consumia tanto que o meu rapaz
tímido chegou a parar um cliente na saída para dizer-lhe que ia fazer um peru
quando chegasse em casa. O homem, surpreso, sorriu e disse:
- " Bom para você, amigo!"
Eu ainda não pensava muito naquilo. Quando chegamos em
casa, as meninas logo se aprontaram para a hora do pijama e ele foi direto para
a mesa com papel, tesoura, lápis de cor e cola.
- "É hora de fazer o meu peru! " - Fiquei
aliviada de ter um pouco de tranquilidade e mantive-me ocupada com tudo o que
uma mãe tem que fazer (...isto é, Tudo!).
Dez minutos depois, ele me apresentou o projeto acabado.
Eu parei com "tudo", espantada.
Ele tinha feito um peru.
Em um milhão de anos eu não teria visto um peru naquela
concha. Minha mente fechada só viu o clichê, a forma habitual de olhar para a
concha. Mas aquele peru me trouxe um momento de iluminação.
Um "peru na concha de marisco" é uma metáfora
perfeita para a vida aspie. Tantas vezes vemos as coisas, literal ou
figurativamente, no espaço ou no olhar de nossa mente, que ninguém mais pode,
efetivamente, ver... e, mais importante, que nos excita e delicia para plena
realização do que vemos. Para o meu filho, era um peru em uma concha. Para mim,
geralmente é alguma percepção sobre a natureza humana e espiritualidade, ou
alguma conexão entre conceitos que cria uma forma limpa, curta, direta para
resolver o que parece ser uma bagunça complicada . E... ninguém mais vê.
Não é que sejamos particularmente gênios ou importantes
por ver o que vemos, é quão significativo é para nós, e como é impossível
comunicar para alguém. No caso do meu filho, ele foi capaz de traduzir para o
espaço tangível e compartilhá-lo. Aposto que o homem com quem ele falou no
restaurante não teve outro pensamento, nem que iria esperar um produto acabado
como o descrito acima. Mas quando meu filho disse, fez com grande convicção e
alegria. Ele estava borbulhando de alegria com a sua visão criativa.
Lembro-me de ter um momento desses, quando tinha cinco
anos. Do nada, percebi que a maioria das crianças são automaticamente
programadas para fazer perguntas primeiro para suas mães e não para seus pais,
mesmo que seu pai esteja sentado bem na sua frente. Isso me ocorreu quando
minha colega passou por seu pai perfeitamente alerta e capaz para perguntar a
sua mãe dentro de casa algo que bem poderia ter perguntado a ele, do lado de
fora. Compartilhei o meu espanto com nosso outro amigo que estava esperando lá
fora, observando como achei estranha a necessidade de as crianças correrem para
suas mães em vez dos pais. Eu não sabia que seu pai acharia tão ofensivo,
principalmente porque eu disse com a mente de um antropólogo e não insultando o
pai de meu amigo, então foi um grande choque mais tarde, quando foi repreendida
por ter sido rude e obrigada a me desculpar com ele. Insisti que eu não fiz
nada de errado, mas não havia o que a fazer... Tive que me desculpar. Parecia
muito mais ofensivo a MIM ter que pedir desculpas pela observação inofensiva
(e, para mim, emocionante). E, quando tudo foi feito, minha amiga ainda ia para
a mãe, não o pai, então meu pedido de desculpas nada mudou.
Muitas vezes me sinto mal interpretada, e isso incomoda mais
quando é algo que me afeta profundamente - ainda mais se não consigo
compartilhar com mais ninguém. Na maioria das vezes, não vai mudar o mundo, mas
ao longo do tempo, faz-me sentir como se minhas ideias (sobre coisas
completamente fúteis , sim) não valem o esforço, porque as outras pessoas não
vêem o maneira que eu vejo. Tem sido um desafio ao longo da vida empurrar-me
para tentar me comunicar melhor, ser mais paciente para explicar o que quero
dizer, ser mais tolerante quando os outros não vêem o que eu vejo... e me
agarrar a minha visão, mesmo quando é muito mais fácil apenas jogar a concha de
distância.
Mas agora tenho um desafio maior. Não se trata mais só de
mim... trata-se dos meus filhos. É minha tarefa incentivá-los, mesmo quando o
resto do mundo não puder ver o peru na concha. Na verdade, o mundo pode mesmo
nunca ver o peru ... mas não ouse deixar extinguir-se a centelha interior. Se
você sabe que está lá... então confie que está. Apegue-se a suas convicções.
Teste-as para si mesmo, não para qualquer outra pessoa. Persevere em
comunicá-las. E o mais importante, nunca negue que o peru está lá, mesmo se
ninguém puder encontrá-lo. Não deixe que os outros falem com você sobre quem
você é, porque eles não têm o seu auto-olhar!
Senhor... Deixe que meus filhinhos me conduzam!
| Aimee O'Connell | Autism support network (Rede de apoio ao autismo) | Tradução: Argemiro Garcia |

Nenhum comentário:
Postar um comentário