"Superação" sempre foi a palavra de ordem na
vida do baterista Lucas Faissal, de 29 anos. Nascido em São José do Rio Preto
(SP), o músico teve que enfrentar mais do que simples dificuldades ao decidir
ser baterista, como aprender o instrumento ou decidir pela carreira musical,
por exemplo. Isso porque Lucas nasceu com má formação nos braços, que o impede
de fazer atividades rotineiras, como amarrar o tênis ou fechar um zíper.
Mesmo com todas essas dificuldades, Lucas não deixou a
vontade de tocar bateria ir embora, se tornando um exemplo de que os sonhos
podem ser realizados mesmo diante de barreiras enormes. “Muitas pessoas achavam
impossível e hoje me perguntam como eu consigo. Quebrei barreiras. Além do fato
de aprender, tive de mostrar para os outros que posso tocar bateria”, afirma.
A paixão de Lucas pela música sempre existiu. O primeiro
foi um violão, aos 13 anos de idade. “Não deu certo porque não tinha como eu
fazer os acordes, não conseguia. Daí na época meu pai comprou um teclado
pequeno para mim, eu ficava brincando, mas não conseguia tocar muito também”,
lembra Lucas.
Foi um vizinho que o chamou para uma aula gratuita de
bateria que despertou a paixão pelo instrumento. Mesmo achando que não iria
conseguir tocar, até pela falta de coordenação que tinha, aos poucos ele foi
arrumando a bateria da melhor forma possível e conseguiu evoluir no
instrumento.
Com ajuda de professores e muitas aulas depois, Lucas
acabou chamando atenção de músicos de Rio Preto. Não demorou muito para que ele
fosse incentivado a participar de festivais de música na cidade. Aos 17 anos,
montou uma banda com os amigos e ficou em 3º lugar de um festival de escolas de
música. Com o prêmio de destaque do evento, a paixão só cresceu.
“Neste meu primeiro festival, eu tremia muito. Na época
eu tinha vergonha de aparecer, fiz até tratamento psicológico para isso. Na
hora eu achei que era um festival só para pais de alunos, mas quando vi que
tinha mais de 200 pessoas no auditório, tremia muito”, relembra.
A vontade de Lucas de tentar seguir carreira na música só
aumentou.
Mesmo com os problemas físicos que certamente limitariam
qualquer pessoa, o jovem nunca se sentiu desmotivado e principalmente, lutou
contra o preconceito. “Por incrível que pareça, nunca sofri com preconceito na
música, as pessoas me encaram como um vencedor. O preconceito vinha de fora, me
lembro que na época de escola, quando andava na rua, tinha vergonha de passar
na faixa de pedestre porque todos os motoristas olhavam para mim”, afirma.
Lucas já tocou barzinhos de Rio Preto e integrou seis
bandas desde que começou a tocar bateria. No último concurso que disputou cm
uma delas, a banda contava com o voto do público para avançar de fase e pela
internet, ele recebeu muitos incentivos “Estávamos começando e disputando
contra bandas já tradicionais da cidade, mas o maior prêmio para mim foi ver na
página oficial do concurso os incentivos das pessoas pelo meu esforço”, comenta
o músico.
Hoje, Lucas fez uma cirurgia e aguarda recuperação para
voltar a tocar. "A intenção é voltar a tocar só no ano que vem, se
possível em uma banda gospel", diz.
Além da família e dos amigos, Lucas também teve apoio de
médicos por um longo tempo durante a infância na AACD (Associação de
Assistência à Criança Deficiente) de Rio Preto. Para o ortopedista e gerente
médico da AACD, Hamilton Hidalgo, a superação de uma pessoa deficiente fica
mais fácil com ajuda especializada. “A terapia ocupacional ajuda a família e a
criança a criar meios de superação. Ela consegue se adaptar aos instrumentos,
por exemplo, e driblar a deficiência. Existem algumas adaptações que se podem
fazer e são maneiras de explorar as habilidades das pessoas para que possam
superar os obstáculos”, diz o médico.
Segundo Hidalgo, a deficiência acontece de duas maneiras
e cada uma deve ser tratada de um jeito. Existe a deficiência congênita, quando
a pessoa nasceu com ela, e se ela sofrer um trauma, como em um acidente, por
exemplo. “Quando é congênita, a criança não sabe o que é ter um braço normal,
por exemplo. Então ela tem uma adaptação mais tranquila que vai facilitar a
essa criança no futuro. Agora se ela sofrer um trauma, essa adaptação também
ocorre, mas menos natural, mais traumática, porque ela já teve noção de como é
ter um braço normal”, diz.
Para o ortopedista, tanto o tratamento ortopédico, como o
psicológico devem andar juntos para a melhora do paciente. Hidalgo diz que as
crianças se adaptam melhor do que um adulto a uma deficiência, já que quanto
mais velho, mais difícil é trabalhar com este problema. “A deficiência se
transforma em um obstáculo para a pessoa, mas com a determinação e incentivo da
família, de não esconder a pessoa pela deficiência, ela vai conseguir
habilidades que permitirão a ela fazer atividades que poderiam ser impossíveis.
Ela precisa de apoio e um terapeuta preparado”, finaliza o médico.
Fonte-G1

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